Uma crônica sobre o Butão – ou sobre essa tal felicidade

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Escondido nas montanhas do Himalaia, o pequeno país asiático coloca em xeque a visão fragmentada e individualista do que é ser feliz

Há 1 ano, eu estava desembarcando na estação do Reino da Felicidade, o Butão, uma parada que me proporcionou um mergulho profundo nas crenças que limitavam as minhas fronteiras e um reconhecimento das expansões que estavam diante de mim. Os passos por lá dados serviram de esteio para o caminho que hoje sigo percorrendo.

A curiosidade e uma boa dose de inquietação me fizeram escolher, sem hesitar, ir rumo à uma terra onde o tempo tem outra apropriação e os valores subvertem a lógica maniqueísta que experienciamos aqui no ocidente. Deixei-me guiar pelas rotas íngremes e gélidas de um lugar que parece ser um recanto resiliente à homogeneidade da globalização. 

Literalmente nas alturas e abraçado pela cordilheira dos Himalaias, o Butão exibe a elevada energia do sutil. Há uma leveza no ar, um profundo olhar, uma consistência no andar e uma simplicidade elegante no desenrolar do cotidiano.

O que faz do Butão o país mais feliz do mundo?

Nesse fluir, fui conduzida por meu guia, o Sr. Lang, ao encontro de um dos conselheiros do Rei, Dasho Puntsho. Seu papel é verificar se as políticas governamentais se coadunam com a felicidade da população. 

Incrível pensar em uma estrutura de governo que se propõe a zelar pela felicidade de seu povo, não é mesmo? Isso me parecia algo inimaginável até então.

Durante algumas horas, conversamos descontraidamente sobre essa temática tão fascinante. O empenho é tamanho que o pequeno Butão ganhou o título de país mais feliz do mundo. 

Filosofando neste télos, para ser feliz, é preciso ser humano, ou seja, sentir, compreender e realizar no coletivo. Essa ousada, e talvez inadvertida teorização, veio da percepção de que por lá a intangibilidade da felicidade ganhou contornos concretos, reais e mensuráveis para compor o que eles denominam Felicidade Interna Bruta (FIB). Esse indicador é tão importante que está registrado na Constituição de 2008 do país.

A sinergia entre políticas de governo e felicidade é secular e está na base de formação do país. Data de 1729 a expressão legal da necessidade da promoção da felicidade dos cidadãos butaneses. 

O cuidado com esse intangível bem nacional se tornou conhecido no ocidente nos anos 1970, quando o então Rei Jigme Singye Wangchuck, em reportagem do New York Times, disse que a política de seu país atuava de forma a garantir a felicidade da população tanto quanto a autossuficiência econômica. Em seguida, emprega o termo “Felicidade Interna Bruta” em resposta à indagação do repórter sobre como fazia isso. O soberano disse ainda que para o governo butanês a FIB era mais importante do que o PIB (Produto Interno Bruto).

Em síntese, FIB significa desenvolvimento com valores, garantindo a felicidade coletiva da nação e proporcionando que o país cresça organicamente e nos próprios termos. No entanto, isso não é algo teórico, que fique apenas no mundo das retóricas próprias da política.  Pelo menos não no Butão.

A cada cinco anos, em todo o país, diferentes grupos de pessoas fazem parte de um censo que verifica tendências, além do aumento ou diminuição da percepção de felicidade. O  grande diferencial dessa pesquisa é a inclusão de fatores culturais, ambientais, sociais e psicológicos. Com base nessa investigação, as políticas públicas são ou não implementadas.

Foi assim que o Butão proibiu o uso de agrotóxicos há mais de 30 anos, se tornou o único país no mundo a absorver mais carbono do que emitir, e foi pioneiro na implementação do turismo sustentável. Todo esse processo tem origem em algo muito genuíno desse povo e foi objeto de muito debate e sistematização até a definição dos quatro pilares da FIB: preservação cultural, conservação ambiental, boa governança e igualdade socioeconômica.

Habitantes do Butão

A leveza da felicidade

A raiz do conceito de Felicidade Interna Bruta está no Budismo, prática espiritual que está no âmago da construção dessa nação. Aqui, o budismo não aparece como uma prática religiosa dominical ou até mesmo um refúgio espiritual em momentos desafiadores. É uma filosofia de vida que permeia os mais simples atos do viver desse povo.

Neste contexto, a felicidade perde o conceito de produto que utilizamos aqui no Ocidente. Não se trata da busca de um prazer, um humor temporário ou um sentir-se bem, mas é sobre um profundo, significativo e duradouro sentido do termo.

Na perspectiva butanense, a felicidade só é possível quando reconhecemos a interconectividade de todas as coisas. Isso proporciona o surgimento da amorosidade, generosidade e compaixão nas relações entre o meio ambiente e todos os seres nele estabelecidos, sem dominância ou prevalência.

Os habitantes desta terra vivem em rede, o que os torna interdependentes e só permite que atuem em colaboração para sustentar a si e ao coletivo. O reconhecimento dessa interconectividade traz ainda uma latente e alegre necessidade de compartilhar com o outro e, com isso, o aflorar de um inato saber de que é na qualidade das relações vividas que reside um espaço para ser feliz.

Essa linearidade relacional de todos no ecossistema torna o viver no Butão simples, acolhedor, inovador e singelamente revolucionário. Tive lá a percepção de que para ser feliz é preciso estar realizando aquilo que se destina.

Este lugar onde o feliz habita, cresce, aquece e transborda do pessoal para o coletivo, do comunitário para o institucional, faz do Butão um ponto quase mítico neste mundo. No entanto, preciso fazer um registro de que de forma alguma este relato pretende retratar o país como um reino de faz de conta, onde mazelas não existem.  Elas estão lá.

O que esta exposição, muito pessoal, deste lugar “tão tão distante” se propõe é trazer uma outra narrativa para que possamos lembrar de que existem muitas possibilidades de se viver. Não há no mundo um só paradigma relacional.  A vida é múltipla e diversa.

O fato é que o que por lá vivi ficou tatuado em mim e ainda reverbera na cura da minha dor de viver relações incompletas.

Tem alguma dúvida?