Sucessão familiar: relações baseadas em diálogo são capazes de dar suporte a negócios que atravessam gerações

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Nas empresas familiares, pensar no futuro é desafiador não apenas a nível de gestão, mas também quanto à harmonia das relações 

Você já deve ter visto uma história assim. Tudo começa quando um casal inicia um pequeno empreendimento. Enquanto isso, os filhos crescem convivendo com o dia a dia da empresa, observando o esforço dos pais. 

Com o tempo, o negócio e a família aumentam e, assim, também surgem as disputas e os conflitos. Mesmo antes da passagem de bastão para os líderes sucessores, muitos dos problemas das empresas familiares envolvem questões ligadas ao dinheiro ou poder. 

Esse cenário é mais comum do que se imagina, tendo em vista que 90% dos negócios brasileiros são familiares, de acordo com o Sebrae. Nessas empresas,  a competência técnica não é suficiente para o sucesso, uma vez que a continuidade do empreendimento também é dependente da harmonia familiar. 

Os conflitos internos são um dos principais motivos que levam 88% das empresas familiares a fecharem as portas antes de chegar à terceira geração, segundo estimativas da consultoria PwC. Fica ainda mais evidente a necessidade de se ter uma gestão e um processo de sucessão conduzidos de modo planejado, transparente e que crie um espaço frutífero para a colaboração entre todos os envolvidos. 

Sucessão familiar: o que gera conflito nas empresas familiares?

Tanto no agronegócio quanto na indústria e no comércio, os negócios familiares são diferentes de outros tipos de empreendimentos. Isso ocorre porque, além da gestão e das operações, entram em jogo a dinâmica familiar e de propriedade.

A sucessão se revela como um problema perene para as empresas familiares, pois são poucas as que investem tempo, dedicação e recursos na elaboração de um planejamento sucessório. É o que aponta o National Bureau of Economic Research Family Business Alliance ao revelar que 43% das empresas familiares não têm um plano de sucessão, ainda que três em cada quatro donos desejem passar a propriedade para a próxima geração.

Nos negócios familiares, a linha entre razão e sentimentos fica ainda mais tênue. Ao passo que há a centralização da tomada de decisões, os problemas da empresa podem impactar as relações familiares e vice-versa. 

Esse processo é delicado e assustador, especialmente para fundadores ou líderes seniores que, muitas vezes, acham difícil abrir mão da gestão do dia a dia do negócio. Não importa o quão talentosos ou instruídos os filhos sejam, pode haver dúvidas sobre se eles podem assumir e administrar o negócio tão bem quanto os pais fizeram. 

Forçar os filhos a participarem do dia a dia do negócio, ainda que não queiram ou não tenham aptidão, também é um obstáculo frequente. Segundo o relatório da PwC, vem crescendo o número de herdeiros que não possuem interesse em atuar na empresa da família.

Outra dificuldade é lidar com os novos membros que são agregados na relação empresa-família, que passam a opinar ou trabalhar no negócio. Isso pode fazer com que alguns dos envolvidos se sintam preteridos nas decisões, não valorizados ou, ainda, que trabalham mais do que os outros.

Ao mesmo tempo, um erro comum e potencialmente fatal é deixar a sucessão para o último momento, ou quando não houver outra opção. Isso pode colocar em risco a própria sobrevivência da empresa familiar.

Nos casos em que há um sucessor escolhido, os atritos podem ocorrer pela divergência de pensamentos entre as gerações. Por vezes, é complicado para os seniores abrirem mão dos seus modelos de gestão por crerem que “em time que está ganhando não se mexe”. Assim, acabam gerando frustração e, por vezes, barrando processos de inovação e implementação de melhorias. 

Sem um planejamento de sucessão adequado, a empresa e a família podem acabar tendo acaloradas divergências e emaranhados jurídicos que, porventura, podem até mesmo prejudicar a reputação da marca. Por isso é tão importante contar com consultores que ajudem na elaboração do posicionamento estratégico e iluminem o caminho de transição.

É possível tirar vantagem do conflito

A sucessão exitosa é um processo demorado que requer trabalho em equipe. Não é um evento. Alinhar a família, ter conversas difíceis, criar as estruturas certas e reavaliá-las à medida que os tempos mudam são o que torna a sucessão um processo. 

Por exigir que diferentes gerações trabalhem juntas, além de conversas abertas entre os proprietários, o planejamento da sucessão pode ajudar a fortalecer os laços familiares e o engajamento com o negócio. 

É preciso entender e aceitar que os conflitos são inerentes às relações humanas e fazem parte da rotina dos negócios. Quem melhor souber tirar proveito deles, mais chances tem de alavancar seu sucesso. 

Entre os caminhos para se desenvolver as relações, pode-se optar pelos acordos familiares, uma gestão compartilhada ou pela formação de um conselho. A chave para isso está no diálogo, em uma comunicação clara e uma escuta ativa para receber opiniões, ainda que divergentes, sem julgamentos. 

É possível tirar vantagem do conflito

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Lembre-se que todo negócio tem um propósito, seja ele meramente gerar lucro ou causar impacto social. Então, é preciso estar alinhado a respeito dos valores daquela empresa e levar isso em consideração quando for preciso solucionar problemas. 

Ao mesmo tempo, é necessário ser transparente com os seus colaboradores a respeito da transição. Comunicar claramente as intenções de sucessão familiar, desenvolver fortes laços relacionais e provar a aptidão dos líderes da próxima geração pode ser útil para conseguir a adesão de seus funcionários. Isso não apenas proporcionará uma transição de liderança tranquila, mas também poderá aumentar a identificação dos trabalhadores com os propósitos da empresa.

O processo de sucessão familiar pode ser muito rico e proveitoso do ponto de vista do fortalecimento das relações. Todos devem andar lado a lado, abraçando as individualidades do outro e aproveitando o melhor dessa vivência. 

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