“Fé nos homens e na criação de um mundo onde seja menos difícil amar”
Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido)

Construí minha percepção do mundo baseada na perspectiva de ser forte. Era preciso enfrentar e lutar contra qualquer desconforto que sentisse para dar conta das situações que se apresentassem na minha vida. Isso sem que, necessariamente, representasse caminhar alinhada com as emoções.

Viver era sobre controlar e racionalizar sentimentos. Situações que expunham a minha fragilidade e sensibilidade eram relativizadas, normalizadas e devidamente disfarçadas. 

No curso do processo de apropriação das minhas necessidades individuais e expressão delas no meu viver, percebi que a prática de se distanciar do subjetivo estava diretamente relacionada, dentre outras causas, com um desenvolvimento intelectual apartado do mundo da afetividade. Desde muito cedo, o percurso educacional legitima exclusivamente o conhecimento racional.

Passamos da creche à universidade prestigiando e cultivando apenas o hemisfério esquerdo do cérebro em detrimento a qualquer subjetividade. Tudo aquilo que não está no campo do lógico é desprezado e classificado como algo menor, a ser desconsiderado na aprendizagem escolar.

Essa realidade me causou perplexidade, dor e compreensão de que todo o desconforto e inadequação que senti, até então, eram legítimos. Afinal, como poderia meio cérebro dar conta de todo um inteiro que clamava por espaço para ser?

Olhar para a minha inteireza me fez descortinar essa vigente concepção racional da natureza humana e constatar a lacuna que o sistema educacional traz quando a incentiva. Como bem aponta Edgar Morin, no livro Os sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, “não há um estágio superior da razão dominante da emoção, mas um eixo intelecto-afetivo, e, de certa maneira, a capacidade de emoções é indispensável ao estabelecimento de comportamentos racionais”

O modelo educacional atual ainda está sedimentado no anacrônico paradigma cartesiano e na sua ideia central de separação do sujeito do objeto. Ademais, está ancorado na lógica do colonialismo, do processo de produção industrial e do consumo estabelecidos nos séculos anteriores.

Experienciamos, assim, primeiro uma secção nossa da natureza.  A leitura que fazemos é a de que somos um espécime superior que tudo pode controlar para suprir desejos. Com olhos conquistadores, extraímos dela seus segredos somente para usurpá-la.

Depois, uma separação entre nós. Onde aqueles que seguem uma educação formal são mais valiosos do que aqueles que estão no campo, nos trabalhos manuais ou de qualquer outra natureza que não seja intelectual, para que assim estejamos autorizados a usar, explorar e descartá-los. 

Por derradeiro, toda essa segregação chega até nós, validando apenas só uma parte de nossa essência: o racional. Com o intuito de legitimar todo esse sistema que nos educa para termos empregos em organizações que destrói tudo, inclusive a nós, escamoteando sentimentos.

Fomos educados e seguimos educando pessoas treinadas para a autodestruição.

Como consequência da anestesiante impossibilidade de vivermos em integral autenticidade, experimentamos o adoecer de nossa consciência e o dolorido sintoma das crises climática, econômica e social, que nos assolam. Observando e reconhecendo o fato de que surgimos do mundo natural, causa-me estranheza ainda agirmos como seres superiores a qualquer outra forma existente na Terra.

Como imaginar que o meu trabalho intelectual é melhor do que o daquele que produz meu alimento, constrói minha cadeira e tece minha roupa – sem os quais eu não posso sobreviver. Ou, ainda, supor que possamos nos relacionar ou trabalhar sem a consciência da integração entre o nosso corpo, mente e alma.

Percebo que a Educação necessita abraçar a realidade holística que nos habita. Somente assim poderemos começar a criar nossos empregos ao invés de sermos “recursos humanos” em organizações que não estão a serviço da vida.

Visiono que esse caminho pode nos permitir expressar nossas habilidades natas e, com isso, restabelecer relações de parceria. A colaboração é constituinte da natureza humana, tal qual toda teia sistêmica que sustenta a vida neste planeta.


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