Em um mundo cada vez mais diverso e múltiplo, a colaboração impulsiona o bem-estar individual e a criatividade coletiva

Nos últimos tempos, a vida nos mostrou uma irrefutável realidade: não há separação entre o profissional e o privado. A sala de casa virou escritório. A linha que separa o expediente de trabalho do período de lazer se tornou bem menos visível. 

Se antes a figura profissional – que pouco revelava além de seus diplomas – tinha o tempo da jornada de trabalho e o espaço do escritório para existir, agora está mesclada com a vida privada, fazendo um malabarismo para lidar com afazeres domésticos, família e animais de estimação. Não foram poucas as vezes que vimos “participações especiais” de filhos ou netos de nossos colegas em reuniões, causando momentos de descontração e, para alguns, até de embaraço. 

Com o mundo para além das paredes de nossas casas em inegável inconstância e mutação, as incertezas com o hoje e o medo do futuro vieram à tona com força. Ao mesmo tempo, nossa unicidade, vulnerabilidade e interdependência ficou evidente, deixando exposta uma real necessidade de cuidarmos de nosso bem-estar psicológico. Essa pauta ganhou tamanha proporção que até mesmo grandes companhias, como Nike, Nestlé e Danone, anunciaram programas de acompanhamento psicológico ou folgas para que funcionários priorizem a saúde mental. 

Esse conjunto de situações me coloca para refletir acerca do “paradigma da força”. A “força”, da qual me refiro, é tudo aquilo que vem de fora e não respeita quem somos. Algo que nos leva a crer que devemos trabalhar e, consequentemente, viver desconsiderando nossa indissociável unicidade. 

Esse paradigma instalado de forma muito evidente nas dinâmicas de trabalho impõe regras que não levam em consideração nossas necessidades individuais. Entramos no mercado de trabalho acreditando que formação acadêmica é mais importante do que trabalhos manuais, que devemos ter férias uma vez ao ano, nos restringirmos a horários de trabalho engessados, progressões de carreiras e hierarquia de tarefas. 

Todos esses conceitos externos tentam nos encaixar em formatos pré-prontos, sem sequer dar a oportunidade de questionarmos esse sistema. Somos compelidos a seguir o que está pré-estabelecido, sob a pena de sermos colocados à margem. Tornamo-nos peças que podem ser trocadas caso não se encaixem. 

Assim, nosso sentir único e autêntico deixa de ter lugar. Precisa ser escondido, suprimido para se adequar ao modelo normatizado, ainda que, paradoxalmente, habilidades que são do campo da autenticidade (como criatividade e inovação) sejam tão exigidas, valorizadas e almejadas pelas companhias.

Na condição de mais um, de mão-obra nivelada por diplomas, títulos e bens de consumo, somos incentivados a competir entre si. Crescemos acreditando que nada é bom o suficiente, que a vida é sobre lutar, vencer, conquistar mais e mais, e extrair tudo que pudermos da natureza. E assim perpetuamos uma lógica colonialista de dominação. 

Os anseios de nossas almas são abafados. Como consequência, afloram frustrações, depressão, ansiedade. Sentimos-nos drenados. Adoecemos. Para anestesiar esta dor, recorremos ao abuso de álcool, drogas, compulsão alimentar e consumismo. 

Vivemos coletivamente o trauma de não sermos nós mesmos, de não acolhermos o que é do subjetivo sentir. Um conflito que pulsa e reverbera em mim, em você e no todo.

Como reverter a lógica da individualidade

Limitados nesse emaranhado, como poderíamos ver uma saída alternativa? Como seria possível deixarmos a opressão da competição e nos colocarmos em um propósito colaborativo?

Percebo que assumir quem sou passa por lidar com a realidade da minha vulnerabilidade, da minha grandeza, mas também da minha enorme limitação diante de muitas situações. Partindo deste primeiro passo, posso reconhecer a interdependência e, também, a possibilidade de juntos criarmos as ferramentas necessárias para construirmos novas narrativas.

Aqui me valho da preciosa lição Antônio Damásio, tirada do seu livro “O erro de Descartes”. Em certa passagem, ele diz: “os sentimentos encaminham-nos na direção correta, levam-nos para o lugar apropriado do espaço de tomada de decisão onde podemos tirar partido dos instrumentos da lógica”.

Intuo que a esperança vem da conexão. Ela nos permite trafegar pela lógica da parceria, da colaboração, em detrimento da alienante e sufocante dinâmica do individualismo, da força e da competição.

Na colaboração, é possível experienciar a fenomenologia da vida, abraçar nossas necessidades individuais – tão fluidas e intercambiáveis –, e vivê-las com um processo de evolução natural que nos proporciona sonhar, criar e inovar. Agir com paixão e compaixão supre-nos e serve a todos.

Ter como bússola o sentir, cuja a agulha é movida por nossas inatas necessidades, significa trilhar o caminho do nosso propósito. Construir ambientes onde possamos expressar quem somos, fazendo emergir o paradigma da colaboração, deslinda a magnitude do desafio que temos pela frente.

Leia também: E se trocássemos as relações de competição por cooperação?


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