As psicólogas Malu Palma e Claudia Couto escolherem o Contrato Consciente como uma forma de firmar o comprometimento no processo terapêutico

A palavra é a mais conhecida ferramenta utilizada pela psicologia em seus processos terapêuticos. É através dela que a maioria dos acordos entre pacientes e psicólogos são feitos, definindo a periodicidade das sessões, as contribuições financeiras, entre outros detalhes. 

Contudo, alguns processos são mais definidos, com prazos para início, meio e fim. É o caso da Jornada da Criança Ferida à Criança Divina, um projeto conduzido pelas psicólogas Malu Palma e Claudia Couto.  

Por ser um processo em grupo, onde cada integrante contribui para a construção da identidade daquele coletivo, era necessário que cada participante se comprometesse em seguir até o fim do processo, participando de cada encontro. Assim, as psicólogas buscaram a abordagem dos Contratos Conscientes para firmar esses acordos. 

O que é a Jornada da Criança Ferida à Criança Divina

Como psicoterapeutas, Malu e Claudia percebiam que alguns pacientes tinham dificuldade de prosseguir na terapia por sentirem que o processo era repetitivo. Pensando nisso, delinearam a Jornada da Criança Ferida à Criança Divina, um caminho orientado pelos ensinamentos da psicologia analítica de Carl Jung.

Para essa jornada curativa, foram definidos 12 encontros semanais encadeados, facilitados pelas psicólogas. São turmas de cerca de 15 pessoas que compõem um grupo que participa dessas atividades terapêuticas. “Era preciso amarrar o compromisso, uma vez que a proposta do trabalho não permitia que se colocasse alguém no meio do caminho. Seria prejudicial para o grupo, que, quando alguma pessoa que sai ou entra, acaba causando uma desorganização na identidade do grupo, causando a necessidade de uma reorganização”, justifica Cláudia. 

Desafios

Inicialmente, as psicólogas recorreram a um contrato convencional para elencar as responsabilidades das partes. Contudo, viu-se que aquela linguagem não era condizente com a proposta de trabalho. “Não chegamos a usar o contrato tradicional. Tinha tudo que queríamos em termos de cláusulas, mas aquilo ‘descia quadrado’. É uma linguagem tão distante do meu universo de trabalho, dura, com forma e abordagem gelada, sem nenhum tipo de subjetividade”, relata Cláudia.

O contrato deveria servir como instrumento para dar clareza aos combinados entre os participantes e as psicólogas, a fim de criar um ambiente de confiança. “É preciso que as pessoas entendam que elas precisam ir do começo até o final. Como era um trabalho que poderia ser pago em prestações, precisamos firmar isso por escrito”, complementa Malu.

Metodologia aplicada

Além de definir quais eram as cláusulas importantes para aquela relação entre os participantes da Jornada e as psicoterapeutas, o contrato devia ter uma linguagem amigável, abrindo margem para que qualquer dúvida ou desconforto fossem sinalizados. Assim, foram feitas algumas conversas com a advogada e idealizadora da SER Consultoria, Fernanda Guerra, para a construção do contrato de prestação de serviços.


A co-criação durou cerca de uma semana. Em sua versão final, o contrato conta com um design amigável, com ilustrações da artista Pillar Buss que representam o processo terapêutico. Cada cláusula foi pensada quanto à sua necessidade e a clareza de suas palavras, a fim de tornar mais inteligível o documento.

A abordagem dos Contratos Conscientes prima pela transparência nas relações e o cuidado com o outro. São documentos que atuam como guias para as relações, deixando claros os compromissos e entregas de cada parte, bem como o propósito daquele vínculo e o que deve ser feito em caso de conflitos. “Diferentemente dos contratos tradicionais, o foco não é prever problemas e buscar soluções hipotéticas para tais problemáticas, mas promover um olhar sistêmico, onde se percebe todos os fatores de forma mais ampla e interligada”, esclarece a advogada.

Segundo Malu, o Contrato Consciente é visto como algo de ponto e aplicável em diversas áreas. “Naqueles contratos áridos do Direito, você, que é parte implicada, com responsabilidades importantes naquele contrato, fica subtraído de informações que podem ser primordiais por não entendimento de algo. Já o Contrato Consciente se aproveita um pouco do construtivismo, de você ir junto com a pessoa, co-construindo num processo colaborativo. É algo muito rico e entendo como sendo algo que funciona, porque as pessoas se comprometem. É uma forma adulta e responsável de olhar para os seus projetos e compromissos”, afirma.

Resultados

Para Claudia, todos os contratos deveriam ser humanizados dessa forma. “Fazendo uma analogia, a linguagem que Fernanda usa toca nos afetos da pessoa. O cliente se sente protegido e também se sente tratado como adulto, mas não num lugar de “eu tenho que me proteger de você porque você pode querer me sacanear aí na frente” e a recíproca é verdade”, acredita. “É uma outra linguagem, que convida para ir junto no processo. Não coloca ninguém diante de outra pessoa como um inimigo em potencial, mas que clarifica a parceria. Isso me encantou, porque iniciar relações na defesa é já sair perdendo de largada. É uma regência do medo, não do amor”, conclui a psicóloga.

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